domingo, 4 de março de 2012

LÁGRIMAS

Uma emoção basta para provoca-las
Mas não para por-lhes um fim.
Vem discretas, incolores,
São verdades, são amores
Estão em mim.

Caem como uma coreografia
Descem pela face,
Pela pele fria, desgastada,
Sem disfarce.

Bem que poderiam ser lágrimas de plenitude
Pela felicidade de uma atitude
Mas são a síntese amarga
De uma paixão que veio do nada
E está levando minha juventude.

“Melancolia de poeta”
É o que podem dizer.
Só por não ser secreta,
Julgam-na piegas
Sem razão de ser.

Mas de que adianta o julgamento
Se o pior está por dentro
Onde só eu posso ver?

As escondi, as reprimi, mas de nada adiantou
Pois estão aqui.
Mesmo diante de minha rejeição e repugnância
Lavam a minha alma
Levam a relutância.

Venham, lágrimas
Materializem a minha dor.
Não mais as temo, não mais me acovardo
Assumo que sofro por amor.

E é o que quero de ti
Que me deixes rolar pelo teu rosto
Revelando tua verdade
Sem temores, nem saudades
Para que sintas o meu gosto.

Se após este contato,
Sentires um gosto amargo
E não me quiseres de fato,
Não irei insistir.

Só não posso ficar escondida
Em teu peito feito ferida
Como uma lágrima esquecida
Que anseia por dos teus olhos cair.

(2000)

VERDES OLHOS VEDES - A Garcia Lorca

Verdes caminhos
Vedes?
O ressoar do sino nas paredes
Blem blem por ninguém
O ressoar da saudade
Sem tua sede
- Redes -
Bem, porém
Ela não tem.

Rende-te
Minhas linhas já não sentem
Fúria e fogo rasgam rente
Mas não as correntes
Apenas eu,
Carente.

Entre!
Me tire desse aguardente
Sem entes,
Nem frentes
Doente
Enfrente!

Vedes verdes olhos
Verdes olhos, vedes?
Não vedes o verde
Nem verde tu vedes
Só preto e branco
Por dentro
Tormento
Aguento
E não vedes, olhos verdes
Não me vedes
Nem me viste
Mas em teus olhos verdes
Minha sombra existe
"Preta e branco"
Cor de pranto
E tão triste...

Verdes olhos, por que persistes?

(2000)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

DEVANEIOS

Me transporte para a sorte de desvendar os teus devaneios.
Ligeiro o toque,
Infinito o desejo,
Barata a morte,
Caros são teus beijos.
Morte sem o toque ligeiro do teu infinito desejo.
Sorte...não ter a morte para duelar com os devaneios.
Devaneios,
Desejos de morte,
De ser apanhada,
E com sorte,
Te desvendar primeiro.

(2000)

ECO DO ADEUS

É deserto...
Nada sinto
Nada penso
O fim está perto.

É deserto...
Um pouco de vinho tinto
Tantas lágrimas para um só lenço
Erros que no fundo estavam certos.

É deserto...
Foi-se o oásis de água
Tenho sede, tenho mágoa
Ouço no adeus o teu eco.

Nada sinto
Nada penso
Um pouco de vinho tinto
Tantas lágrimas para um só lenço
Foi-se o oásis de água
Tenho sede, tenho mágoa
É deserto...
O fim está perto
É deserto...
Erros que no fundo estavam certos
É deserto...
Ouço no adeus o teu eco.
O adeus...
O adeus...
É deserto...
É deserto.

(2000)

AMOR QUE MATA

O impacto de um pacto,
De fardo e pecado,
Pode ser a algema de almas gêmeas,
Sendo negado.

Que força tem o destino,
Quem ousa,
Quem bane,
Quem ama,
Quer sangue,
Cretino?
           
O deleite do amante,
Tão raro,
Tão caro,
É doce,
E Amargo,
Diamante.

O eco do teu grito,
Tão mudo,
Tão tudo,
É fato,
Relato,
Do mito.

Meus braços,
Soltos,
Nosso laço,
Morto.

Desejo de ser quista,
Tão sutil,
Juvenil,
Tão livre,
Como tive,
Masoquista.

Caminho que não sigo,
Que renego,
Que é cego,
De paixão,
Que levou um não,
Castigo.

Todos os restos e sobras,
Do teu horror,
Da tua obra.

Fardo...Pecado,
Pecado...Fardo.
Causa ou conseqüência,
Tudo vale pela sobrevivência,
De viver sem te ter ao meu lado.

Que derrame o sangue,
Que grites de pavor,
Não peço que me ames,
Mas te mato por amor.

(2000) 

JARDIM DOS SENTIMENTOS

Para minha tristeza dou flores,
Da minha realização as recebo,
Uma de cada um dos amores,
Duas para cada dia de medo.

Mudas que brotam por todos os lados,
Hora como um presente, hora como um fardo,
Que são a punição e a recompensa,
A derrota mais propensa,
O elogio e a ofensa,
O bem e o mal misturados.

Nos dias de escuridão e turbulência,
Distribuo a compaixão das Hortências,
Que de tão coloridas e constantes,
Podem me trazer a calma de antes,
E amenizar a tua ausência.

Dias de longo martírio,
Noites mal dormidas a fio.
A compensação vem discreta,
Na frieza que não desperta,
De um único exemplar de Lírio.

Junto com a chuva incessante que se encena,
Deixo em minha janela uma dúzia de Açucenas,
Assim resgato a doçura da infância,
Assim me absolvo com a sua fragrância,
E pago a metade da minha pena.

Entregue ao rancor e a fadiga,
Levo por dentro a dor da partida.
Ao invés de um reencontro inesperado,
Me resta viver sem te ter ao meu lado,
E de consolo uma só margarida.

Para prolongar o alívio e cessar o pranto,
Faço uma oferenda de Flores - do - campo.
Uma centena delas por um olhar de compreensão,
Outras dez para segurar na tua mão,
E deixar de sofrer tanto.

Queria ser livre tal qual borboleta,
Escrever minha vida sem  lei, de caneta,
Mas o que tenho é só um rascunho,
Feito de lápis e por outro punho,
Deixado ao lado de uma Violeta.

Perdida neste tempo seco e ruim,
Lanço ao vento um punhado de Jasmins,
Que com sua singeleza e ternura,
Tragam-me a fertilidade e a semeadura,
Da mais rara das flores em mim.

Por mais que tente ficar alheia,
Percebo que com algo a flor se assemelha,
A que acabo de receber aos montes,
A que brota de infindável fonte,
E chamamos de Rosa Vermelha.

Ela veio para anunciar um jardim,
Ela veio para adubar meu peito,
E nele agora nascem sem fim,
Galhos e mais galhos de Amor-perfeito.

(2001)

DESPEDIDA

Um rosto,
Um apego,
Mil lembranças.

Sem traços,
Sem rastros,
Sem esperanças.

Só um esboço,
Nesse esforço,
De pele e osso,
É o que faço.

Lágrimas que não têm rumo,
Tristezas profundas que em sumo,
São sentimentos rasos.

Pele quente, peito aberto,
Toda desgraça chega perto.
Nesse meu rosto sem marcas,
Deixo cortes, passo a faca,
Num desespero discreto.

Sangue que derrama,
Que encharca a alma e minha cama,
É um destino certo,
No suicídio secreto,
De alguém que ninguém ama.

(2000)

PROPOSTA INDECENTE

Desejo...
Palavra inexplorada,
Aflorada,
Fantasiosa,
Densa, temerosa.

Palpitante,
Desconcertante,
Risco assumido,
Perigo não corrido.

Porta entreaberta,
Instigante,
Idéia vaga,
Mas não errante.

O arrepio inoportuno,
O gosto do infortuno,
O mais bem aventurado,
Mesmo que nunca experimentado.

Poesia não rimada,
Noite não enluarada,
Já se foram as regras,
Pois ele corre às cegas.

Nas minhas veias,
No meu sangue,
Na minha alma que se esparrame.
Antes um ato descabido,
Do que um amor não sentido.

Sem palavras,
Sem tratos,
O código subentendido por fatos.

Sem sentido
Como amigo,
Delirante
Como amante.
A explosão da libido,
Meu corpo pelo teu aquecido,
Como jamais quisera antes.

Povoa meus devaneios,
E com seus olhares matreiros,
Me leva ao êxtase ligeiro,
Querendo seguir adiante.


Vontade de te sentir ao meu lado,
Tocando minha pele,
Meu corpo molhado.
De percorrer tua boca,
E ouvir tua voz rouca,
Dizendo que sou louca,
Por ter me entregado.

Todos os meus sentidos,
Bem como meu corpo aturdidos,
Nesse teu toque que embriaga,
Com exatidão tão vaga.
E prazer garantido.

Teu jeito, teu rosto,
Teus braços, meu encosto,
As estrelas como testemunha,
De um amor que ninguém supunha.

A mercê da tua paixão,
Assumida, desesperada,
Sem medo, sem razão,
Me declaro apaixonada.

Porta escancarada,
Insaciada,
Idéia certa.
Só mais um sonho,
Mas te proponho,
A descoberta.

(2000) 

IMPRESSÕES

Na boca não tem o gosto,
Na memória nem mais o rosto.

De tanto que reprime,
Até o cheiro, impressão mais sublime,
Se dissipa dentre outros perfumes,
Que sem identidade nunca se assumem.

No lugar da tua voz,
Estão a dor e o amor a sós.
Ao invés das tuas cartas,
Antes tão doces e tão fartas,
Releio em mente,
O relato sobrevivente,
Ao sumiço de tantas marcas.

Quando volto para o exílio,
Para essa casa de puro martírio,
Não mais encontro as paredes de sempre,
E sim os muros altos que separam a gente.

Paredes erguidas para dar sustento,
Muros que vieram como o vento.
Um sopro de desgraça,
Levou o tempo que nunca passa,
Mas que se esconde por dentro.

Se foi o amor perfeito,
Ficou o aperto no peito.
Mesmo com tudo o que tento,
Já não tenho aquele acalento,
Refúgio nas noites em claro,
Razão dos dias felizes e raros.

Meu mundo de tantas cores,
Ficou opaco,
Fraco,
Um jardim sem flores.

Minha inesgotável persistência,
Se rendeu ao abandono e à tua ausência.
O que era anseio pela saudade,
Tornou ainda mais longínqua a felicidade.


O que mais me causa espanto,
É o sumiço de um querer tanto,
Que atravessava quilômetros aos milhares,
Que estava em todos os lugares,
E que hoje resume-se ao meu pranto.

Do teu toque só restou a foto,
Impressão tão sem vida e sem foco,
Que retrata uma realidade inexistente,
Destruída por te guiares pela mente,
Numa covardia que já não suporto.

Dilacerantes atitudes,
Dilacerada juventude.
Se foi como me veio,
Abreviou nossos sonhos ao meio.

Tua voz, tuas linhas,
Palavras tão tuas quanto minhas.
Teu sorriso, teu cheiro,
Senti teu amor por inteiro.

A improbabilidade do que eu temia,
Fez-se inevitável, quem diria,
Levando meu amor e minhas emoções,
Me deixando só as impressões,
De quem já foi feliz um dia.

(2000)

VIDAS CRUZADAS

O que seria do mundo sem as cores,
Dos jardins sem as flores,
Do ser humano sem valores,
Da verdade se não houvesse mentira,
Da calma se não fosse a ira,
Do silêncio se não fosse a algazarra,
Do crente sem a fé em que se agarra?

O que seria da luz sem a escuridão,
Dos homens sem perdão,
Dos dedos sem as mãos,
Da água sem a sede,
Do pescador sem sua rede,
E dos pés sem o chão?

O que seria das palavras sem os gestos,
Dos pobres sem os restos,
E dos músicos sem os maestros?

O que seria do levante sem o tombo,
Do aflito sem um ombro,
Do alívio sem a agonia,
E da noite se não houvesse dia?

O que seria do livro sem quem o leu,
Do reencontro sem o adeus,
O que será dos versos meus,
E dos meus lábios sem os teus?

Entardecer sem sol poente,
Rio sem sua nascente,
Inocente que se rendeu?

O que restou da gente,
Foi esse vazio dormente,
Que de tão grande nem se sente,
O que se ganhou e se perdeu.

Eu sem ti não sou nada,
Sou pássaro sem alvorada,
Sou livre de mãos atadas,
E tenho minha vida cruzada,
Por esse amor que se escondeu.

Eu sem ti sou isso,
O inferno sem o paraíso,
O choro sem o riso,
Tudo o que não tenho e preciso,
Eu sem ti simplesmente não sou eu.


(2000)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Paradoxo do Silêncio

O silêncio traduz um tanto da incompreensão, um quê do pecado de se permitir elaborar uma linha ou duas de discórdia, destas que condenam nossos desejos e expõem nossas limitações.
O silêncio que irrompe na madrugada, difere do que se esgota no torpor do sonho, quando a imagem define “o tom” da fantasia. É persuasivo, quase que personificado no contorno de nossos dogmas existenciais, muitas vezes pouco pragmáticos.
O silêncio desenha em sua sinuosa ilusão de permissividade, o sedutor intervalo de sobriedade que irriga o sangue de nossas derrotas e o consolo de nossas mentes desertoras.
O silêncio golpeia a indiferença de faca em punho, ainda que esta possa esconder-se sob o artifício de belas palavras. Estas, ele habita, instiga, investiga e por que não, PALPITA, permite que tomem forma, cede generosamente seu lugar para que pulsem.
O silêncio é um espaço que converge para as rimas, que abriga um tanto do sorriso contido pela ânsia de seu preenchimento ou dispersão. É um antídoto contra a ansiedade.
O silêncio é o representante legal da criação, a gênese do saber, o marco zero de nossa sapiência tão relativamente dialógica. É pacifista, tolerante, conciliador. É o que pode diferir o esperto do sábio: "quem cala NEM sempre consente", ainda que se sinta que já não se pode sentir.
Há quem o veja paradoxalmente como agente perturbador, ou porta-voz (?) da indiferença. Mas o silêncio porta-se como o tempo, senhor de si e de tudo que rege, ponderado e cabível além de nossas falíveis tentativas de mesurá-lo ou de julgar sua legitimidade.
O silêncio ainda que subjetivamente reconfortante, inscreve-se no coincidente da alma humana – o pensamento – que assim como o tempo, é sempre um relevante aditivo em nossa frenética descoberta, ainda que esta só revele-se na inexistência das respostas que tanto racionalizamos, em intervalos de pouca (ou nenhuma) sobriedade de nosso ânimos.


(2007)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

“O concreto muro das ilusões”


Um muro alto,
É tudo o que vejo,
Eu corro, eu grito, eu salto,
Mas só ouço um relampejo.

Que me desperta da tentativa,
Dessa minha vida relativa,
De sufocado desejo,
E sufocante partida.

Desse tempo nauseante,
Querendo resgatar o antes,
Não podendo ir adiante,
Nem vendo qualquer saída.

Muro de três tempos,
Muro de sentimentos.
O esforço que esgota,
É o mesmo que me suporta.

O silêncio gritante,
Que me abate e me motiva,
É um sábio pedante,
Um adulto infante,
E uma dor gradativa.

Para onde quer que eu ande,
O muro se expande,
Junto com essa dor tão grande,
Que não deixa alternativa.

Muro sem fim,
O vazio em mim.
Ninguém ocupa este espaço,
Tão ávido e casto.

Me vejo solitária,
Nessa desgraça tão hilária,
De sofrimento não presumido,
E de amor pressentido.

Amor forte o suficiente,
Para me afastar de muita gente,
Mas que se torna inseguro,
Quando se trata de pular esse muro.

Muro de concreto,
Onde ninguém chega perto.
É todo meu o esforço,
E para quem me despreza eu torço.

Promessas jamais feitas,
Mas tão certas e aceitas,
Deixam minha alma emudecida,
Por que foram esquecidas.

O céu não clareia,
Meus olhos estão cheios de areia.
Por eles descem as lágrimas,
Com meu rancor e minhas lástimas.

Do mais profundo martírio,
Sou despertada por um cheiro de lírio,
Que vem do outro lado,
Daquele muro amaldiçoado.

Minha mente atordoada,
Ouve uma voz entrecortada,
Chamando pelo nome,
Que parece ser de um homem,
Em uma busca emocionada.

Querendo ir ao seu encontro,
Desesperada eu respondo,
Com incessantes batidas,
Que não sei se estão sendo ouvidas.

Meu semblante denuncia o medo,
De ser mais uma vez abandonada,
Não posso desistir nem tão cedo,
De finalmente ser resgatada.

Sem futuro no presente,
Mas com uma vida pela frente,
Tento seguir o caminho,
Onde não tenha que pular sozinha.

Só me resta este corpo,
Que de vida tem um sopro,
Mas preciso derrubar o concreto,
Para que eu possa vê-lo de perto.

Um olhar que não me é estranho,
A beleza ímpar daqueles olhos castanhos.
Uma lembrança intempestiva,
Me faz reconhecer aquela mão estendida.

O impacto do passado,
Tão presente e superado,
Me trouxe o amanhã.
Ao som de “Nem um dia”,
Na voz de Djavan.

Música de infinitos acordes,
Que faz com que desse pesadelo eu acorde,
É meu único apoio,
Para que eu possa novamente olhar no teu olho.

Muro da mesma rota,
Muro que te traz de volta.
Estou caminhando em círculos,
Hora no inferno, hora no paraíso.

De uma profunda reflexão,
Sou sorrateiramente despertada,
Não vejo mais sua mão,
Nem ouço sua voz emocionada.

Muro do arrependimento,
Da incapacidade,
Do nó por dentro.
Muro do orgulho ferido,
Da necessidade,
Do puro perigo.
Não importa quem duvida,
Para pular esse muro darei minha vida.

Um impulso,
Uma sequência,
Esse muro,
A resistência.
Pés e mãos corroídos,
Pelo tempo em que foram esquecidos.

O choque entre o que eu quero,
O que pode ser e o que espero,
A consequência em nada muda,
O querer sair dessa dor profunda.

Liberdade e o teu beijo,
Tudo isso em um só desejo,
Meu coração palpitando,
Enquanto vejo o concreto desabando.

Um forte pensamento,
E um chão cheio de cimento,
Dos escombros sou salva,
E reconheço aquela pele alva.

Tamanho sorriso,
Olhos castanhos dos quais preciso,
Teu beijo sela a vitória,
Nessa felicidade tão provisória,
De caráter indeciso.

Muro destruído,
Objetivo conseguido,
Meu corpo se entrega,
Estou fraca, estou cega,
Meu tempo já foi perdido.

Sinto meus pés do chão se desprendendo,
Sinto minha alma livre, estou morrendo.
Tenho que ir embora,
E não posso ouvir quem por mim chora.

Estou morta para a vida,
E viva para a metamorfose,
Não sou mais um barco a deriva,
Cansei dessa overdose.

Dessa droga que me alucina,
Que me inocenta e que me incrimina,
Que criou aquele muro de dependência,
De desconsolo e de “sub-vivência”.

Onde fui reduzida a lixo,
Absorvida pela minha condição,
E por crer num discurso prolixo,
Assinei minha própria condenação.

Reflexo do inconsciente,
Que insufla o ego e degrada a mente,
O livre arbítrio obrigado,
O som com os ouvidos tapados.

Muro que era de aparência,
Muro que crescia com a sua ausência,
Excesso da droga infinita,
Que rege o mundo e o limita.
Droga que criou esse muro,
Droga que o derrubou,
Só não conhece essa droga,
Quem nunca se apaixonou.

                                                                                         25/09/00 - 16:17